Sobre "António, Lindo António": O Tio foi em viagem de negócios

por Francisco Noronha / 08 09 2016


Vencedor da competição nacional do Curtas Vila do Conde 2016, o filme de Ana Maria Gomes é um peculiar e ternurento ensaio sobre a identidade (familiar, cultural, paisagística, mesmo “civilizacional”), os afectos, a emigração, a memória, enfim, sobre essa palavra que os portugueses tão orgulhosamente reclamam para o seu património linguístico chamada “saudade” (e a língua falada, com o seu calão e demais declinações, é outro dos tesouros do filme). A câmara (planos fixos, maioritariamente) e a voz (sempre no fora de campo) de Gomes lançam-se numa demanda detectivesca pelo tio desaparecido há mais de cinquenta anos para o Brasil, questionando a família e os populares de uma aldeia remota sobre a sua ausência e o eventual regresso (qual Godot), na carismática e castiça avó da realizadora se revelando uma das – senão “a” – pérola do filme. 

Se atrás escrevemos “ensaio” e não, mais escorreitamente, “documentário”, é porque a tensão (e a tentação) ficcional está, de alguma forma, sempre latente, a começar na descrição algo romanesca, quase mítica, do tio e culminando nesse bonito twist musical final que, de um só golpe, derruba as fronteiras convencionais entre os dois géneros. Mas a dimensão ficcional que a realizadora aqui questiona não é apenas conceptual (i.e., enquanto género cinematográfico); “ficção”, também, na forma adulterada – “ficcionada”, lá está – como, frequentemente, recordamos, mesmo que involuntária ou inconscientemente, acontecimentos do passado (“Quem conta um conto…”), “ficção”, afinal, como o reverso da fragilidade da memória (começamos por ouvir alguém dizer que o tio jamais em tempo algum voltou do Brasil para, passado uns minutos, a avó recordar uma vinda sua à terra). Um exercício nostálgico, sim, mas que Gomes, contrariando essa característica tão portuguesa chamada fatalismo, tempera sempre com a graça intrínseca das pessoas filmadas, captadas no momento e com o tom certos.

 

Francisco Noronha
Crítico de cinema

 

 


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