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Fórum do Real 2019: Identidades

por Alexandra Martins, Luís Lima e Rita Morais / 29 10 2019


Consulte o alinhamento dos três painéis: Da TerraDa Imagem; Do Pensamento.

Ao longo da sua história, o cinema sempre construiu identidades, nem que para melhor as poder desconstruir. Falamos de personas e personagens, de aparições performativas, de auto-ficções e biografias e até de cinema de autor, ou seja, de assinatura. No cinema, a questão da identidade envolve muito mais do que o cineasta, se bem que poderemos supor que começa e termina com este. Mas as personagens, os temas, os planos, os públicos, os circuitos e até os labels atribuídos a cada género são todos eles elementos de constituição ou desconstrução de identidades, ou seja, de singularidades. Aliás, o dispositivo técnico exige permanentemente o reconhecimento de um autor, de um público, de um género ou de um estilo. Há depois a questão filosófica, a fixação psicológica, o debate antropológico, a visão sociológica, política e até jurídica da noção de identidade. Identidades constituem-se, conquistam-se, reconhecem-se. Mas identidades também se enquistam, cristalizam e institucionalizam, fixando, assombrando e aterrorizando. Mas quem não pretende ter o direito a uma identidade, de ser reconhecido enquanto cidadão? Afinal, não é essa uma das questões fundamentais, por exemplo, na luta dos sans-papiers? Sem constituir uma identidade, poder-se-á sequer pensar em multiplicá-la, reconstruí-la ou decliná-la em géneros?

Assim, e porque o tema é demasiado abrangente e complexo para ser abordado de uma forma generalista, o Fórum do Real pretende aproximar-se desta temática numa tripla abordagem: identidades da terra, da imagem, do pensamento. Se, num primeiro tempo, a questão de território se opõe talvez à de país ou de nação, as geografias de afecto, as multiplicidades e diversidades de uma comunidade ou a arte do reconhecimento constituem balizas conceptuais para este debate entre um geógrafo, uma antropóloga e um artista: Álvaro Domingues, Susana de Matos Viegas e Ben Rivers. De que modo estas diferentes práticas podem contribuir e/ ou apontar para uma saída da intricada cena contemporânea (como lhe quisermos chamar, Antropoceno, Capitaloceno, Piroceno, etc.) em que se parece colocar em causa a possibilidade de uma relação sustentável entre natureza e técnica?

O segundo painel será dedicado às relações entre imagem e identidade, tendo como principal objecto de debate as imagens cinematográficas (no seu sentido mais aberto, incluindo, assim, a vídeo-arte). Ao longo da sua história, o acto de filmar tem sido um instrumento privilegiado na construção-e-representação de identidades (do sujeito e do colectivo) mas também de alteridades (a pergunta a que sempre se retorna: como filmar o outro?), numa estreita relação com a memória. Da liquidez identitária de Zygmunt Bauman ao cinema hifenizado de Thomas Elsaesser, este painel pretende debater o modo como o cinema contemporâneo se tem confrontado com as contaminações identitárias da pós-modernidade, a partir da práxis cinematográfica, contando com contribuições de Daniel Ribas (investigador), Christana Perschon (realizadora) e Pedro Mexia (crítico). 

No terceiro painel, o debate centrar-se-á sobre questões de âmbito filosófico. Sem querer dar resposta à pergunta de Nietzsche "como nos tornamos aquilo que somos?", pretende-se debater em torno do conceito de identidade, tendo como pano de fundo noções como "identidade sem pessoa", de Giorgio Agamben, "singular plural", de Jean-Luc Nancy, ou a propalada frase de Jean-Arthur Rimbaud, "Eu é um outro". Entre a filosofia e a literatura, as imagens mentais e o pensamento contemporâneo, Marie-José Mondzain (filósofa), António Guerreiro (ensaísta) e Valérie Massadian (realizadora) discorrerão sobre as vicissitudes de um conceito que, desde a antiguidade clássica, se mantém tão incontornável quanto indiscernível. Afinal, o que estará em questão não é senão a problemática aristotélica da socrateidade, ou seja, a ideia de que a identidade de Sócrates é a propriedade de ser idêntico a si mesmo. É neste contexto de diferença e repetição (invocando o título do primeiro grande livro de Gilles Deleuze sobre a ontologia do ser unívoco), de identidade e diversidade, que os convidados levarão a cabo um trabalho do pensamento sobre as identidades.


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