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Olhando os Outros Olhando o Sofrimento dos Outros: Jan Ijäs

por Porto/Post/Doc / 13 10 2026


A obra de Jan Ijäs (n. 1975) reúne cerca de 30 curtas-metragens e uma longa-metragem documental, num percurso que atravessa o cinema experimental, as artes visuais e o documentário poético. Rodados maioritariamente em película de 16 mm e 35 mm, os seus filmes encontram na materialidade do suporte um contraponto à amplitude geográfica e narrativa de uma prática que circula entre festivais de cinema, museus e galerias. As suas obras integram, entre outras, as coleções da Fundação Saastamoinen, da Galeria Nacional da Finlândia, do Museu de Arte de Helsínquia e da Fundação Jenny e Antti Wihuri.

Um impulso ensaístico percorre grande parte destes filmes: revelar o que há de inesperado em fenómenos que tendemos a ignorar, precisamente por estarem tão próximos da vida quotidiana. A série “Waste” ocupa um lugar central nesta abordagem, interrogando a instabilidade do valor e os processos pelos quais algo considerado precioso se transforma em desperdício, para eventualmente voltar a adquirir utilidade ou significado.

Em “Desperdício n.º 1: Dinheiro” (2017), primeiro filme da série, Ijäs observa a lavagem de notas ocidentais com detergente Omo num Zimbabué marcado pelo colapso económico. O humor da situação contrasta com as dificuldades de filmar sob a ditadura de Robert Mugabe. Em “Desperdício n.º 6: Que Fantástico!” (2021), a pergunta torna-se mais ambígua: o que constitui o desperdício, a tecnologia ou o próprio conhecimento? O percurso passa por uma lixeira de resíduos eletrónicos tóxicos no Gana, conhecida como “Sodoma e Gomorra”, e por um centro de reabilitação para jovens dependentes de smartphones na Coreia do Sul. Na Turquia, uma biblioteca criada por trabalhadores da recolha de lixo, a partir de livros descartados, abre uma possibilidade de recuperação e partilha.

Desde “FANTASMAS” (2009), realizado durante os seus estudos e centrado num centro de acolhimento para requerentes de asilo, Ijäs privilegia uma narração em voz-off construída com histórias e episódios, frequentemente acompanhada por música eletrónica inquietante. A contenção deste dispositivo convida a questionar o que se ouve e a observar a distância entre o relato e a imagem. Em “O Incidente na Floresta de Belgrado… e o que aconteceu ao Sr. K?” (2020), essa distância permite interrogar narrativas que procuram ocultar as circunstâncias do assassinato de jornalistas. Em “Sobre a Arte da Cenografia” (2018), filmado na Coreia do Norte a partir das ideias de Kim Jong Il sobre cinema e cenografia, a fronteira entre encenação e realidade torna-se ainda mais incerta.

Esta neutralidade lacónica adquire uma dimensão particularmente perturbadora em “PICNIC – Numa Luz Invisível ao Olho Humano” (2026). O filme reúne avaliações publicadas online sobre locais na fronteira entre Israel e Gaza, onde o lazer e a contemplação da paisagem coexistem com a proximidade da devastação. Ijäs regista estes discursos e acontecimentos, deixando ao espectador espaço para formular as suas emoções e os seus juízos, enquanto uma ironia crítica atravessa a relação entre som e imagem. Os seus documentários devolvem-nos, assim, um espelho incómodo: observamos outros a observar a dor dos outros, ou a procurar respostas para os problemas materiais produzidos pelo excesso da sociedade de consumo.

Apresentado no Porto/Post/Doc em duas partes, o programa dedicado a Jan Ijäs integra o intercâmbio internacional Cinéstesia, uma iniciativa do Espoo Ciné. Com o apoio da Fundação Saastamoinen, Cinéstesia promove o diálogo entre o cinema e as artes visuais, explorando as práticas da imagem em movimento e o território em permanente transformação que partilham.


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