Com “No País Dos Outros”, o Porto/Post/Doc conclui a trilogia iniciada em 2024 com“O Movimento Dos Povos”, dedicada às deslocações humanas, às formas de pertença e às tensões entre território, identidade e memória.
Este terceiro e último programa parte de uma pergunta simples e difícil: o que significa viver num lugar que não nos reconhece plenamente? O país dos outros pode ser uma terra estrangeira, uma fronteira por atravessar, uma língua que exclui, uma comunidade que muda de rosto, uma promessa política ou uma casa onde nunca se deixa de ser observado como intruso. Nos filmes reunidos neste programa, a deslocação não é apenas geográfica. É também íntima, histórica, social e simbólica.
De “Eu, Capitão” a “Se Fores Para O Chile”, o programa olha para corpos em trânsito, empurrados por desigualdade, desejo de futuro e violência política. Em “Tudo Bons Compatriotas”, a experiência de estranheza nasce dentro da própria terra, quando uma comunidade rural deixa de se reconhecer sob o peso de uma nova ordem ideológica. Em “Sou Cuba”, um país é filmado através de um olhar estrangeiro que transforma revolução, pobreza e emancipação numa imagem de enorme potência formal, mas também de tensão política. Em “A Dupla Vida de Véronique”, a alteridade desloca-se para o interior da identidade, como se cada vida transportasse a memória secreta de outra vida possível.
Entre documentário, ficção, crónica histórica, cinema político e fábula metafísica, “No País Dos Outros” observa a pertença como uma condição instável. Pertencer implica aprender códigos, negociar lugares, suportar suspeitas, atravessar fronteiras visíveis e invisíveis. Implica também reconhecer que nenhum território é neutro: todos carregam histórias de posse, exclusão, desejo e conflito.
Ao encerrar esta trilogia, o programa propõe uma leitura ampla da deslocação contemporânea. Não se trata apenas de partir ou chegar, mas de perceber o que acontece quando alguém tenta construir vida num espaço desenhado por outros, sob regras que o precedem e frequentemente o ultrapassam. Nestes filmes, habitar o país dos outros é enfrentar a distância entre a promessa de pertença e a realidade de uma aceitação sempre incompleta.
PROGRAMA
NO PAÍS DOS OUTROS
A Dupla Vida De Véronique
Krzysztof Kieślowski
FRA, POL, NOR, 1991, FIC, 97’
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Eu, Capitão
Matteo Garrone
ITA, BEL, FRA, 2023, FIC, 121’
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Todos Bons Compatriotas
Vojtěch Jasný
CZE, 1968, FIC, 114’
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Se Fores Para O Chile
Sebastián González, Amílcar Infante
CHL, 2025, DOC, 70’
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Sou Cuba
Mikhail Kalatozov
CUB, SUN, 1964, FIC, 140’
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