Sobre "A Trama e o Círculo"

por João Araújo / 08 09 2016


Um filme é muito mais do que a soma simples dos seus diferentes elementos. Esta é uma investigação sobre esses componentes, e sobre a forma como estes relacionam-se, explorada aqui através de uma obra multidisciplinar, que envolve fotografia, som e texto. Partindo precisamente desses elementos, o filme apresenta uma deambulação sobre o poder das imagens, sobre o cinema, avisando no início que tem “coisas a dizer que as imagens não dizem”. “A Trama e o Círculo” começa assim por colocar diversas questões ao espectador, através de um texto que é suportado por uma sucessão de fotos, de gestos repetidos sem resolução, de oscilações e movimentos geométricos. Estamos perante uma espécie de filme-ensaio, de uma questão teórica que é resolvida através de um exercício prático. O objetivo será mostrar que as imagens são matéria transformável, que uma vez capturadas permitem uma metamorfose dos gestos e ações do quotidiano. Tal como o vidro que é trabalhado e moldado nas sequências iniciais, as imagens são como ruínas escavadas cujo significado vai ganhando claridade no observador à medida que ficam expostas. Num filme de gestos pertence ao espectador o mais importante: primeiro, perder-se no encadeamento hipnótico das imagens que sucedem-se, e depois encontrar-se. Se, como se afirma no início, um filme pode ser labirinto, cabe aqui ao espectador encontrar o seu caminho de saída, a sua solução.

 

João Araújo
Crítico de cinema


Tags: / / /
Partilhar: Facebook / Google+ / Twitter
← Notícia anterior Próxima notícia →