Sobre "Gipsofila": O viver está sempre em aberto

por Paulo Cunha / 07 09 2016


O viver está sempre em aberto

A casa de Lourdes Albuquerque é hoje um espaço que se assemelha a uma prisão onde se tem medo de abrir a porta, onde não se sai muito à rua e até não se atende o telefone.  A casa da avó Lourdes foi o espaço onde ela criou os seus filhos e viveu parte significativa da vida. Essa casa é o seu mundo e alberga objetos que remetem para memórias e sentimentos de uma vida feita de “pequenos nadas”, como a própria confessa.

Sozinha, sem equipa (foi a primeira vez que trabalhou sem diretor de fotografia), a realizadora Margarida Leitão quis preservar o ambiente familiar durante os cerca de três anos em que levou a câmara de filmar para a casa da sua avó Lourdes. Sem argumento ou qualquer tipo de tratamento aparente, Gipsofila não apresenta um dispositivo cénico ou dramatúrgico complexo, mas vislumbra-se um fio narrativo condutor aparentemente inequívoco: a relação entre uma neta e a sua avó. Pontuada pelos humores, tanto da avó como da neta, esta relação vai evoluindo em direções que ora as aproximam ora as afastam.

Gradualmente, sem que nos apercebamos de forma muito consciente, o filme vai-se adensando e complexificando. À passagem da meia hora de filme, há um plano que sintetiza claramente todo o dispositivo cinemático e que nos desafia enquanto espectadores/voyeurs sobre o que estamos a ver/espiar: a avó fala, no lado esquerdo do plano, a neta ouve e filma, no lado direito, refletida no espelho; por detrás da neta, há uma imagem de Chaplin e de Jackie Coogan em The Kid (1921), em que ambos espreitam numa esquina; no plano, a avó fala de não gostar de ser fotografada agora que já não é jovem.

É a partir daqui que o filme passa a centrar-se sobretudo na neta Margarida. Vários minutos depois, há outra cena no espelho: desta vez, vemos apenas a realizadora a focar a câmara em silêncio, apenas com o som do vento, primeiro num objeto decorativo e depois em si própria. Voltamos a tê-la só no plano quando a avó fala da iminência da sua morte. E, novamente, no plano final, quando encara a câmara antes de a desligar.

Inserido num projeto académico, Gipsofila é sobretudo um filme sobre cinema, sobre o ato de filmar, sobre um processo ético e estético que implica escolhas. Essas escolhas não são as banais que surgem em diversas passagens do filme – como o confronto de “gostos” entre a neta que prefere estar na janela durante o dia e a avó que prefere as luzes da noite –, mas algo mais substancial e consciente: a escolha da cineasta em expor-se na sua vulnerabilidade, na sua fragilidade, ainda que protegida por uma capa de personagem; a escolha (arriscada) de abdicar de uma equipa de rodagem e assumir a responsabilidade solitária de conduzir todo o processo; ou a escolha última em questionar-se a si própria enquanto autora a partir deste registo diarístico feito em casa da avó.

 

Paulo Cunha
Investigador


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