João Nicolau, o sonhador

por Daniel Ribas / 04 04 2016


Através de um dos universos mais iconoclastas do cinema contemporâneo, João Nicolau é uma das mais recentes descobertas do cinema português. Com uma obra ainda curta, o cineasta já construiu um espaço muito próprio, em que dominam os territórios de um certo imaginário infantojuvenil, a partir de um caldo de memórias adolescentes e mágicas. Nicolau estreou-se em 2006 com Rapace, um filme com uma entrada fulgurante no circuito de exibição: venceu o Grande Prémio da Competição Internacional do Curtas Vila do Conde desse ano. Desde então, fez mais três curtas e duas longas, incluindo John From (2015), que agora se estreia em Portugal. A sua carreira é também partilhada enquanto montador e foi nessa função que trabalhou com Miguel Gomes, autor com quem partilha muitas afinidades temáticas e estéticas (os dois aparecem como atores em filmes de ambos; Gomes, aliás, é o pai da personagem principal de Canção de Amor e Saúde). Nascido em Lisboa, Nicolau tem uma tendência para filmar um lado geracional e que se aproxima de uma certa burguesia da cidade, sobretudo dos bairros de classe média como Telheiras (cenário de Rapace e John From), ou dos campos de férias para miúdos. E esse lado de geração é visto através de uma lente obsessiva, em que são destacadas as mais pequenas minudências que marcam uma cultura bairrista ou juvenil.

Talvez o tema central das histórias de Nicolau seja um clássico boy meets girl / girl meets boy. Em todos os filmes há uma candura da paixão e do desejo pelo outro, um desejo quase incontrolável que transforma, magicamente, o mundo que conhecemos. Por isso mesmo, o território geracional de Nicolau é o da infância, da adolescência ou dos jovens adultos (e estes são sempre algo “infantis”). E, nestas idades, o mundo abre-se no esplendor de todas as possibilidades, onde o jogo é uma forma de estabelecer cumplicidades entre os amigos e no despertar das paixões (nestes filmes, temos vários exemplares de jogos: ténis, futebol, bingo, etc.). Neste sentido, parece haver, nestas narrativas, uma grande dose de investimento na autobiografia, através de uma memória adocicada que nos chega através de símbolos: os cromos do futebol, os monstros amigos, a chave da passagem secreta, ou os cumprimentos ritualizados das personagens. E, como é óbvio, estas memórias são afetuosas e divertidas. Permitem um mundo mais “habitual”, de uma certa segurança familiar. Esse mundo é visto através da paisagem urbana de Lisboa ou Porto, e da repetição obsessiva das personagens a percorrer ruas secundárias, bosques ou centros comerciais decadentes. Mas isso não impede que as personagens de Nicolau arrisquem, procurando algo maior, uma espécie de redenção, que pode vir sob a máscara do amor (ou, talvez, do crescimento). Há, aliás, um contraste com as personagens adultas, que estão ausentes, ou são simplesmente secundárias à história.

Para consubstanciar esta visão mágica, Nicolau socorre-se de várias técnicas cinematográficas, que chamaríamos, à falta de melhor expressão, não realistas. Por isso, nesta Terra do Nunca, tudo pode acontecer: uma chamada que se atende sem haver um telefone (Rapace), uma porta que abre de uma loja para um jardim (Canção de Amor e Saúde), ou um amor platónico transformado em realidade alternativa (John From). Sinal disso mesmo é a fascinante sequência final de Rapace, uma festa memorável, que põe em evidência a “crise” da transição para uma idade adulta e a vontade de permanecer no mundo da infância. A imaginação é, portanto, o motor narrativo, que é atravessado, nestes filmes, por uma dose robusta de músicas e sons que nos transportam do mundo real. Não por acaso, Nicolau tem também carreira musical e os seus filmes são inseparáveis de uma musicalidade própria deste território do sonho.

Os filmes de João Nicolau são aconchegantes porque nos aproximam de uma certa nostalgia da liberdade absoluta da infância e da adolescência. São filmes ternos, encantados, em que o mundo parece um lugar melhor, em que tudo parece ser ainda possível. Estão entre o carácter festivo e de descoberta de Eric Rohmer e a imaginação divertida e libertina de Wes Anderson. A obra de Nicolau é, portanto, uma porta de entrada para uma Terra do Nunca, em que se prima pela inteligência dos diálogos e do trabalho visual. São filmes “adultos” sobre a capacidade de não perdermos a memória da nossa gloriosa juventude.


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