Programar o Porto/Post/Doc 2015

por Daniel Ribas / 02 12 2015


Desde a sua primeira edição, o Porto/Post/Doc tem uma clara filosofia de programação. Essa filosofia pretende encaixar o festival no interior de uma dinâmica de festivais de cinema que decorrem todos os anos, tanto em Portugal como na Europa. Ao escolher fazer o Porto/Post/Doc no Porto, em dezembro de todos os anos, decidimos integrar um movimento internacional que olha para o cinema contemporâneo com otimismo, considerando que o cerne da nossa programação se centra no percurso delicado do futuro do cinema.

Por outro lado, o Porto/Post/Doc decidiu centrar a sua programação no cinema documental. Considerando o renascimento do documentário nos últimos anos – tanto a nível do melhor cinema documentário, como os filmes feitos para televisão –, o festival assumiu que esse género maior merecia uma janela de exibição no Porto, cidade onde falta um festival de dimensão internacional e que se integre no circuito dos festivais de cinema que privilegiam o cinema como arte.

Mas não queríamos ser mais um festival de documentário. Por isso, assumimos uma zona de risco – zona essa também com uma pluralidade de vozes nos últimos anos – em que o documentário se aproxima dos modos de ficção. Sabemos, é claro, que todo o grande cinema é feito pisando os riscos entre os géneros, mas parecia-nos que era possível assumir esse risco como central na programação de um festival de documentário.

Essa estratégia de programação faz do Porto/Post/Doc um festival que se abre ao que é novo, que se abre ao poético e subliminar, que procura um cinema feito da radicalização da própria voz do realizador. Só esse cinema pode mostrar o mundo que vivemos de um ângulo singular. Mais do que um festival temático – muitos festivais documentais preocupam-se mais em debater temas polémicos, em vez dos documentários sobre temas polémicos – o Porto/Post/Doc é um festival que procura essa ambivalência do real, que só pode ser mostrada quando o cinema baralha as nossas pré-conceções do mundo.

Dessa estratégia, nasce uma competição de doze filmes que procura deliberadamente um hibridismo entre documentário e ficção e uma aposta em obras que promovem um olhar complexo sobre a realidade. A competição do Porto/Post/Doc é, por isso, a nossa resposta à pergunta: o que é o documentário contemporâneo? Também por isso mesmo, a seleção de filmes privilegiou cineastas mais jovens, cujos olhares merecem reconhecimento do mundo do cinema.

Todas as outras secções são pensadas com esta ideia em mente: que obras podem desafiar as leituras do real? Procuramos, em todo o caso, que essas outras secções possam abrir o festival aos interesses mais vastos do público do Porto. Para nós, o Porto/Post/Doc deve oferecer, pelo menos, um ou dois filmes que interessem particularmente a um qualquer espectador.

Como culminar da nossa atividade de programação – desta programação de risco, sempre a procurar um olhar genuíno sobre o mundo – organizamos o Fórum do Real. Esse fórum é o espaço de reflexão que nos autoimpomos, porque sabemos que esta abertura ao novo exige sempre uma procura pelo pensamento e pelo debate das novas formas do cinema contemporâneo.

A fórmula de programação do Porto/Post/Doc é, portanto, alicerçada em vetores estruturantes: a procura pelo cinema de risco, a abertura ao que é novo, ao olhar surpreendente sobre o mundo, e ao ato de pensar a nossa própria condição. Por isso estamos prontos a começar o Porto/Post/Doc 2015.


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