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A Cidade do Depois: Uma Introdução

por Alexandra Martins, Luís Lima / 05 11 2020


Consulte o alinhamento dos três painéis: História(s) da Cidade; Cidades ImaginadasFuck The Polis.

Se boa parte do processo de industrialização iniciado no século XIX apenas veio reforçar o centralismo da pólis, com o despoletar de vários êxodos massivos, com os novos proletários a tomarem o lugar do velho campesinato, relocalizados nas fábricas, hoje a problemática inverte-se e torna-se necessário tornar as próprias cidades – simultaneamente sobre-habitadas e sub-habitadas, gentrificadas e hiper-exploradas – vivíveis. Aliás, torna-se necessário tornar as cidades citadinas, no que diz respeito à experiência da urbe, quando muito do que delas encontramos oscila entre a ruína e o simulacro de uma qualquer experiência da rua: simulacro de um restaurante tradicional; simulacro de uma padaria de bairro; em casos extremos, simulacro de uma paisagem natural. Resistir a um tal simulacro – valorado e obviamente explorado por um sistema hiper-capitalista que dele beneficia directamente – significa, muitas vezes, violentá-lo ou ocupar esses espaços da cidade: as suas praças, os seus jardins, as suas ruas.  Devolver a cidade a quem a habita é fazer cumprir o direito à cidade, à cidadania. No limite, é tornar o espaço vivível.

Não por acaso, boa parte das recentes manifestações sociais colectivas, em Madrid como em Tahrir, em Berlim como em Wall Street, decorrem de uma mesma forma: ocupar as praças, constituir a res-publica, dando-se a ver enquanto corpo colectivo. Outra dessas reacções passa necessariamente pelo dito “regresso às raízes”, em busca da experiência de uma ruralidade sonhada que talvez já nem exista como tal, e até a uma recusa da cidade enquanto tal: um contra-campo, um fora de campo. Das passagens da Paris novecentista de Walter Benjamin às derivas situacionistas debordianas, procuraremos desvelar as linhas de fuga possíveis para uma revaloração da experiência nas cidades contemporâneas. Simultaneamente, propomos reflectir sobre o modo como o cinema acompanhou as transformações das cidades ao longo dos séculos XX e XXI – do vanguardismo modernista e maquínico das cidades em movimento perpétuo (Walter Ruttman, Manoel de Oliveira, Dziga Vertov, etc.), reforçado pela montagem, até à desaceleração do movimento de câmara sob a forma de um slow cinema que não exclui a criação de espaços não-orientáveis (Pedro Costa, Tsai Ming-Liang,  etc.), espaços topológicos.

Em 2020, o Fórum reunirá três painéis de convidados das mais variadas áreas (cinema, filosofia, arquitectura, literatura, entre outras) para conversas em torno destas questões. Paralelamente ao Fórum, o festival apresentará um programa homónimo de filmes – A Cidade do Depois –, cuja selecção visa reflectir algumas das questões enunciadas. Nos últimos anos, o Fórum do Real recebeu diversos convidados nacionais e internacionais como Raymond Bellour, António Guerreiro, Pedro Mexia, Ben Rivers, Paulo Branco, José Bragança de Miranda, João Pedro Rodrigues, Valérie Massadian, Filipa César, Álvaro Domingues, entre muitos outros, tendo discutido questões prementes do cinema contemporâneo (arquivo e pós-memória, ficções do real, identidades, etc.).

Alexandra Martins e Luís Lima


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