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Carte Blanche Eloy Domínguez Serén

por Eloy Domínguez Serén / 05 11 2020


Que extraordinária oportunidade poder unir, por ocasião desta Carte Blanche, duas culturas que sinto tão fortemente vinculadas ao meu coração: a sueca e a portuguesa. Estou muito feliz por partilhar com o público do Porto/Post/Doc os meus três filmes suecos favoritos de todos os tempos, três filmes magníficos que tive a sorte de descobrir durante os anos em que vivi em Estocolmo e que deixaram uma profunda impressão na minha memória emocional. "Det Stora Äventyret", "De Kallar Oss Mods" e "En Kärlekshistoria" são três obras-primas que me surpreenderam, me comoveram e me ajudaram a compreender as idiossincrasias da minha nova vida, mas também contribuíram para enriquecer a minha aprendizagem da língua sueca e estimularam o meu interesse pela filmografia de um país onde o cinema de Ingmar Bergman e alguns títulos específicos de Bo Widerberg, Jan Troell ou Lukas Moodysson eram pouco conhecidos na altura.

"En Kärlekshistoria" é possivelmente o filme mais bonito e terno que conheço. Vi esta maravilhosa história de amor adolescente mais de meia dúzia de vezes e continua a impressionar-me e a surpreender-me cada vez que regresso a ela. A obra-prima de Roy Andersson é um retrato brilhante e mordaz das exaltações, tormentos, intoxicações e torpezas do primeiro amor. Uma tragicomédia inocente e existencial, luminosa e corrosiva, que capta com surpreendente elucidação os atritos, as discrepâncias e os antagonismos entre a adolescência e o mundo adulto. Assim, o filme flutua entre a celebração vibrante, sem preconceitos, ingénua e luminosa dos adolescentes e o amargo pathos dos adultos insatisfeitos, perdidos, confusos, alienados, incapazes de comunicar uns com os outros e com as novas gerações. Geração encarnada por Pär e Annika, a jovem parelha de protagonistas, uma das duplas mais doces e encantadoras do cinema sueco.

Bem diferentes são Kenta e Stoffe, os protagonistas indomados de "De Kallar Oss Mods". O carisma destas duas personagens reside na sua rebeldia subversiva e hedonista, no seu temperamento insurrecional, agitante e provocador. O filme incendiário realizado por Stefan Jarl e Jan Lindqvist (o primeiro de uma trilogia que se estenderia ao longo de quatro décadas) também toca o mundo adolescente, mas de uma perspectiva menos afável: famílias desestruturadas, alcoolismo, delinquência juvenil, drogas, estadias em reformatórios, marginalidade...

Apesar das radicais diferenças de tom entre os filmes de Andersson e de Jarl-Lindqvist, ambos coincidem ao retratar a sociedade sueca da época através da extraordinária efervescência identitária da mocidade, a energia indomável e avassaladora da adolescência e a rebeldia como atitude vital e gesto de auto-afirmação. Mas também ambas alertam para a ameaça de desencanto, desilusão, frustração, asfixia e o inevitável afundamento que pode comportar uma vida adulta excessivamente anódina, insatisfeita ou instável, permanentemente exposta à violência implícita ou explícita.

E, para rematar, quis completar esta viagem pessoal pelo cinema sueco com o filme "Det Stora Äventyret", de Arne Sucksdorff, o filme de natureza mais fascinante que alguma vez vi. Fotografada num belíssimo preto e branco, esta imponente e lírica representação da vida selvagem escandinava é afectuosamente narrada através dos olhos de dois irmãozinhos que vivem numa quinta e que descobrem todo um universo por explorar quando resgatam uma lontra presa numa toca.

Eloy Domínguez Serén


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