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Ao Vicente, um amigo gentil

por Porto/Post/Doc / 28 05 2020


O Vicente era único na sua forma genuína de ser e estar connosco. Durante o festival, à entrada do teatro, passo apressado entre dois compromissos inadiáveis, a trabalhar e sempre feliz, eis o Vicente num jeito singular de caminhar e de falar, sempre em dois mundos simultâneos mas presente e gentil como poucos. «Lembras-te de…?». A celeridade do pensamento e da rememoração (em si mesma inolvidável) obstruem por vezes a clareza das palavras. Mas que importa? A inquietude do corpo é a inquietude do espírito, permanentemente curioso, inexcedivelmente generoso. O Vicente partiu, perdemos um amigo, e a cidade perdeu também. O Porto/Post/Doc perdeu um colaborador que partilhou – com todos e com cada um – a sua sabedoria, a sua alegria e o seu afecto desde a primeira edição.

Quando, em 2014, convidámos o Vicente para acompanhar o júri da Competição Internacional, já sabíamos que podíamos contar com ele não apenas para realizar profissionalmente esta tarefa – que cumpriu com a sabedoria de um mestre de cerimónias de facto – como também para contribuir com as suas qualidades pessoais para que o festival crescesse ano após ano, sem esquecer as horas de festa que animou com os seus discos. A sua genuína amizade pelos outros fez com que os convidados nacionais e internacionais que nos visitaram, ao longo de seis edições, o levassem no coração, e consigo, o festival também. Por isso, neste momento particularmente difícil, não poderíamos deixar de dar a cara pelo Vicente como o Vicente deu a cara pelo Porto/Post/Doc.

Agora que as salas de cinema irão reabrir, após o estranho período que vivenciamos, o Porto perdeu, mais do que um espectador, um cinéfilo, um melómano, que nunca se confinou do cinema. Tomando de empréstimo o empréstimo aos gregos de Herberto Helder, respondemos antecipadamente à pergunta do poeta: pelas pessoas, pela música, pelo cinema, sim, o Vicente tinha paixão.

Recordá-lo-emos para sempre, na convicção de que a sua lista de filmes não deixará de somar novas entradas.

"li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?"

Herberto Helder

Um abraço,
da equipa


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