Folha de Sala - "The Golden Temple"

por Porto/Post/Doc / 28 10 2015


"A primeira vez que me aproximei do sistema de canais de Londres, descobri um mundo totalmente diferente, de muitas formas escondido dos traços habituais da cidade, dos símbolos, ícones e estereótipos conhecidos em todo o mundo. Então, durante um sonho poético, conheci a personagem principal. Ela seria um homem que vivia num barco. Com o passar do tempo, um grande evento colidiria com a sua vida (extra)ordinária. Um grande evento desportivo, as Olimpíadas. Tudo isto foi um sonho.

Um dia, depois de conversar com o escritor Iain Sinclair sobre o futuro de Londres Oriental, este homem ganhou vida. O seu nome era Mike Wells. Conhecemo-nos perto de um cenário imponente - um empreendimento sendo construído sobre as cinzas do pântano de Stratford, perto de carris abandonados, comunidades de ciganos marginalizadas e o vale do rio Lea. Era aqui que a vila Olímpica seria construída. Os canais também faziam parte desta cena, mas estavam rodeados de estádios, instalações, novos bairros residenciais e uma construção-mamute que parecia tocar o céu e a terra. Era um novo centro comercial, [então] o maior da Europa. Começamos a divagar por esta zona e descobrimos mais problemas, mais questões, e mais histórias humanas - um caleidoscópio de pessoas todas tocadas pela mesma síndrome." 

Enrico Masi

The Golden Temple descreve a transformação total de uma grande área de Londres Oriental para as Olimpíadas de 2012. Uma operação que, além da construção do novo estádio de Stratford, produziu uma mudança radical no tecido urbano e social da zona envolvente. O documentário não tem a pretensão de fazer juízos sobre esta transformação, mas quer dar voz aos habitantes do local, que se sentiram violentados pelas decisões que destruíram o mundo em que viviam.

Estradas residenciais gastas, uma rede de rios e canais, antigas zonas industriais abandonadas e de descargas de lixo. Um cenário de fazer apertar as mãos a políticos e construtores. Mas, segundo alguns habitantes, um mundo que tinha uma alma, o calor de uma comunidade humana, que hoje não existe mais. O protesto sublinha que um projecto baseado sobre raciocínios económicos, de upgrade residencial e novos centros comerciais, não foi minimamente discutido com os "indígenas". Os habitantes viram cair sobre eles decisões então definitivas. 

Paul Bompard, jornalista (Internazionale)

 


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