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Ute Aurand: Por um cinema de afectos

por Rita Morais / 28 10 2019


Na edição de 2019 do Porto/Post/Doc, dedicamos um foco ao trabalho de Ute Aurand, com a exibição de vários dos seus filmes e com a presença de realizadora.

Ute Aurand emerge, a partir da década de 80, como uma das figuras centrais no contexto do cinema experimental. Baseada em Berlim, é a partir de uma prática contemporânea de filmar em 16mm que Aurand encontra a sua forma de militância no cinema: um cinema desenvolvido dentro daquela grande tradição do diário filmado, que transporta em si um carácter intrinsecamente político pela reclamação das práticas feministas e artesanais que traz implicadas.

Entre breves momentos, viagens filmadas ou particulares gestos, que atraem a atenção daquela que olha, os ligeiros movimentos vão muito para além da narração ou mesmo da documentação. Eles formam parte de um cinema de empatia, onde se estabelece um diálogo visual mudo entre aquele que vê e aquele que é visto. Trata-se, afinal, de uma particular abordagem à ideia de retrato, onde rostos e gestos são filmados ao longo de vastos períodos de tempo – por vezes anos. Aurand escolhe filmar os seus retratos durante um tempo estendido para nos deixar com a certeza de que estamos perante uma reiterada experiência da temporalidade; de que estamos perante histórias que, na sua particularidade, são ainda comuns a todos nós.

Nestes retratos, que são também uma colecção de momentos ou, mais bem, uma colecção de afectos, as imagens inscrevem com ternura o modo como as relações se desenvolvem e transformam ao longo do tempo e reiteram ainda a ideia de que, nesta deriva da vida, o envelhecimento e a morte formam parte, juntamente com a beleza, das coisas deste mundo. Não o afirmasse já a frase que surge escrita em "Rushing Green With Horses", filme-mote desta retrospectiva, como “uma criança adormece na sua própria vida”.


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