Folha de Sala "Alto Bairro"

por Porto/Post/Doc / 16 07 2015


ALTO BAIRRO


“Sou o Bairro Alto

E olho sempre de alto

Prás tristezas que Lisboa tem

Sou o Bairro Alto,

Pronto a dar o salto

Para um tempo novo que aí vem “

Marcha do Bairro Alto, Camané

 

O Bairro Alto, local de referência para foliões lisboeta, portugueses e estrangeiros, teve desde o seu início uma vida muito própria. O autor segue na procura dessa vida, na voz de quem a vive e, acima de tudo, viveu. Corre de rua em rua, de boca em boca, para construir uma história que faz mais por retratar os sujeitos que o assunto. Essas ruas, calçadas, praças, travessas, ruelas, como as ilustrações que aparecem no início: misturadas em traços, quadrados, caras e sarrabiscos. Este “Alto Bairro” confunde-se dentro das suas personagens e dos seus espaços, cruzando essas vidas, como os caminhos o fazem. 

Entre prostitutas e jovens revolucionários, vemos o passado das ruas. A prostituição, que abre o filme, era vista como um negócio instituído mas com o seu lugar no Bairro Alto. Fazia parte da educação sexual dos jovens lisboetas, bem como “diversão” para os outros homens no bairro, que sempre viveu com esse véu de clandestinidade e boémia. Contudo, havia respeito pelos habitantes que passavam nas suas rotinas. Agora os tempos são diferentes e não há respeito nem discrição, e o povo não gosta.

Entre o dia e a noite vemos o que mudou e o que ficou igual. O bairrismo ainda tem vida, ainda há raparigas que dançam e cantam tal como as suas mães e avós o fizeram. Ainda se celebram as artes, as comunidades e o jornalismo, que tanto fez parte da história do bairro. E à noite ainda há fado, ainda há festa e saudade. Mas também há vandalismo, tráfico e descontrolo.

Quando o dia começa de novo, lembram-se os negócios de família, o comércio tradicional que se foi perdendo à medida que a noite proliferava. Depois do Frágil, nos meados da década de oitenta, a vida boémia começou a proliferar. O Bairro virou moda e os jovens e os turistas chegam, enquanto os mais velhos têm que partir, por falta de condições ou por causa dos ventos de mudança, que agora são frios e vêm com a crise. Fala-se de um loop: os turistas visitam a cidade que estão a destruir, a transformar a tradição em parque temático, como se o Bairro Alto fosse uma "Disneyland do divertimento à portuguesa, onde cada noite desembarcam as frotas de turistas, os jovens das periferias e os dealers encontram os seus clientes", nos turistas que passam com orelhas néon. Chegam de avião, de barco e são erguidos hotéis e hostels para os “camones” verem o que estão a destruir. Como um fado, este filme fala essencialmente da tristeza e desgaste que afetaram ao longo de tempo este bairro, como um choro do seu povo.

 

Renato Santos
Fotógrafo


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