Folha de Sala "Teenage"

por Porto/Post/Doc / 15 07 2015


TEENAGE

Teenage
é um filme realizado por Matt Wolf em 2013. Baseia-se na obra homónima de Jon Savage (2008) – autor do marcante livro England’s Dreaming: Anarchy, Sex Pistols, Punk Rock, and Beyond (1991). A palavra teenager foi primeiramente usada pelos americanos na década de 1940 para narrar o lugar da juventude na sociedade. Recorrendo a uma vasta pesquisa documental de pendor histórico, Savage centra-se em dois marcos fundamentais: 1875, data do primeiro bestseller de uma adolescente em Inglaterra e do primeiro assassínio em massa levado a cabo por um adolescente; e 1945, ano da morte de Anne Frank e do lançamento da bomba nuclear. Muito interessante é o facto de o filme, assim como a sua narrativa de suporte, se focar em (sub)culturas, bandas e tribos juvenis, considerando as suas sociabilidades e rituais alicerçados no cinema, na música, na literatura, na moda, na política, na arte e nas culturas populares. Enfim, estamos perante uma obra que demonstra de forma muito interessante como os conceitos de adolescente e de jovem são construções sociais.

Quando pensamos em adolescentes, as imagens que instantaneamente associamos a essa condição de vida associam-se a um conjunto simbólico vasto – marcas, comportamentos, roupas, acessórios, irreverência, filmes, drogas, subversão. Não é por acaso que Jon Savage deixa antever, no final do seu livro, exactamente um argumento sobre este facto: actualmente, a adolescência, enquanto idade de descoberta e formação de personalidade, bem como de sedimentação de valores e de experiências, tornou-se um alvo perfeito da sociedade de consumo capitalista avançada, e por extensão, um reflexo da modernidade tardia que vivemos. Mas este processo não é inteiramente linear. Apresenta-se em vários momentos a capacidade de resistência deste grupo: mesmo nos períodos de pós-guerra, a idade adolescente configurou-se como um momento de resistência e revolta contra as normas parentais e as regras societais, tomando as consequências como menos punitivas que a limitação ao acesso a um qualquer estilo visual ou corporal. Trata-se, portanto, de um momento único na vida dos indivíduos, pela intensidade com que a dualidade processual se faz sentir – por um lado, a pressão interior e exterior de conformismo sistémico, e por outro, um ímpeto de inconformismo, que parte tanto do indivíduo como dos sistemas e grupos relativamente organizados que este traça à sua volta.

O esforço de Jon Savage, para o qual podemos olhar na tentativa de entender esta dualidade, é exactamente uma procura de articular o tipo de raciocínio conformista e sistémico (muitas vezes falsamente consensualista) com um raciocínio individual e DIY (Do-It-Yourself) em muitos casos. É exactamente este tipo de estética que começa então a prevalecer: uma resposta para com os sistemas mainstream e organizados classicamente, a juventude, na forma dos adolescentes, procura revoltar-se e traçar-se com caminhos específicos e definidos. Vale a pena relembrar que nem os nazis foram capazes de moldar os adolescentes exactamente como desejavam. Um dos pontos mais importantes desta abordagem localiza-se no relato minucioso da forma como alguns jovens na época nazi recorreram à moda britânica e americana (nomeadamente na música) que resistiu durante a era nazi, mesmo face às démarches para a suster. 

A narrativa termina em 1945 com a vitória dos Estados Unidos e dos Aliados na Segunda Guerra Mundial. Aqui, emerge com toda a força o teenager como entidade social, económica e cultural - ligado ao advento da América como potência global e a um novo mercado que viria a ser bastante explorado. Nos anos seguintes, surgiram muitas subculturas juvenis (beats, hippies, mods, rockers, punks) associadas ao rock’n’roll. Para os adolescentes, essa manifestação musical representava a promessa de um novo mundo onde os problemas sociais seriam superados pelas novas liberdades proporcionadas nas várias dimensões da vida. Na realidade, uma das formas pelas quais a Inglaterra absorveu e cativou as culturas juvenis foi precisamente o consumo, o culto do objecto e dos seus templos, as lojas de roupa e de discos. Aliás, a roupa e os acessórios adquiriam um enorme potencial com um maior ou menor comprometimento com ideais específicos. 

Paula Guerra
KISMIF International Conference


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