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Diários de Queulat

por Sebastián Pose / 27 04 2018


Sobre "Queulat Diaries", de Sebastián Pose

Será a procura pela transcendência uma armadilha? Algo que nos paralisa? Seremos honestos relativamente a essa procura ou será um falso antídoto, algo que apenas pensamos quando nos sentimos sós, confusos e velhos? Será que precisamos de estar infelizes para entrar nesse estado de espírito? Poderá isso ser algo bonito? Algo que valha a pena partilhar? Tecnicamente, “Queulat Diaries” é um filme sobre um artista que pinta “en plein air”, no extremo sul do Chile. Um momento na sua vida em que luta com o trabalho, a fim de fazer uma exposição já prometida. Em suma, e numa descrição precisa, o filme seria isto mas merece ser contado como uma história... 

O projecto não começou assim. Começou de uma forma mais simples. Tão simples como eu e o Rafa (Rafael Yaluff) querermos fazer um filme juntos. O facto de ter começado enquanto “documentário” é circunstancial. O que aconteceu depois foi circunstancial. Os métodos e estética utilizados, antes e depois, foram circunstanciais. Esta sessão também o é. Não era sobre as relações entre a pintura e o cinema, mesmo que sejam evidentes muitas vezes. Claro... Foi impossível fugir às questões que nos atormentam quando se começa a pensar porque se está a fazer alguma coisa. Isso acontece em todas as actividades, não só na arte. Mas queríamos tratar dessa questão da forma mais leve possível. Deixar as coisas aparecerem por conta própria. Ao mesmo tempo, a ideia era criar, e afastarmo-nos da peça observacional. Muitas cenas foram filmadas como testes, não era certo que figurarem na montagem final. Penso que a melhor palavra para descrever a sensação do que estávamos a fazer seja “jogar” (play). Primeiro essa sensação veio sobretudo do estado de espírito do Rafa, e depois, lentamente, foi tomando conta de mim... Era muito difícil saber o que estávamos exactamente a explorar ou a brincar com.

Com isto tudo, também se tornou impossível não ser influenciado pelos métodos e reflexões do Rafa. Foi uma viagem pessoal. A procura pela própria metodologia, magia, ou fantasia acabou por influenciar os domínios da pintura e do filme. Por outro lado, aconteceu, mais uma vez, uma situação interessante graças às circunstâncias. A dado momento, o Rafa deixou a pintura para assumir o papel de cineasta. Começou a filmar e a fazer uma espécie de vídeo-diário. A perspectiva alterou-se, o projecto mudou, transmutou-se e eu senti a responsabilidade de fazer justiça a essa bela bagunça. Queria fazê-lo. A situação era complexa. Por um lado, eu como observador, a decidir o que capturar e o que perguntar. Por outro lado, o Rafa a decidir o que capturar, o que criar e o que perguntar. Por fim, tive que escolher o que deveria salvar ou não. 

Apesar de tão interessante quanto soava – e era –, houve um desafio inesperado. Quando o observado devém observador, isso deveria aproximar-nos da mente de um homem que luta contra o tempo, contra a solidão, contra seus medos e contra a pintura? Ou, dada a sua auto-consciência, deveria manter-nos afastados dessa profundidade? O que é interessante é que, frequentemente, quando o artista se afasta da sua situação pessoal e “joga” com a situação e o contexto (ou faz disso uma espécie de performance), testemunhamos um certo tipo de verdade. Estabelece-se aí possibilidade de um elo entre ficção e documentário, que pode ir para lá do formato.

Nenhum dos trabalhos poderia ter existido sem o outro. Nasceu um projecto separado de nós. Muitas vezes, e até este momento, tentou escapar das nossas mãos, desaparecendo lentamente, mas as coisas estavam lá, capturadas e vivas graças a uma câmara. Nós queríamos tirá-las da escuridão. Foi muito difícil ver o que o material dizia de facto. Acho que nenhum de nós sabia. Era fácil pensar que o produto final poderia ter várias formas, que tudo é subjectivo, que editar é escrever. De certa forma é escrever, mas neste caso eu pensei na montagem mais como um processo de descamação de ruído para tentar chegar o mais perto possível de um núcleo, de um lugar onde podemos observar alguma verdade. Ainda que não possamos de facto e que nunca estaremos suficientemente aptos para chegar tão perto. Seja através da ficção ou não. E talvez nem queiramos.

Este projecto não é um documentário sobre Rafael Yaluff. É sobre um momento. Um momento guiado por uma personagem. E a fruição desse momento para retratar alguma coisa, para procurar algo. 

Então, lá vem outro “momento”. O produto final, onde toda a nossa experiência e este texto não têm qualquer relevância. Apenas na projecção se dá esse “momento” entre a tela e os espectadores. Momento que pode ser criado, mas não pode ser controlado. Talvez seja tudo sobre o tempo, como na pintura do Rafa. O tempo, em todas as suas formas, pode encher uma pessoa de angústia e ao mesmo tempo dar-lhe o estímulo necessário para deixar uma obra ser o que é, e deixá-la decidir quantas camadas terá. Esse é o ponto em que ela se aliena do autor e começa a ter uma voz própria. Isso é emocionante. É algo que está fora das nossas mãos, mas que é da nossa responsabilidade, aconteça o que acontecer. É um momento mágico. 

Sebastián Pose
Realizador

 


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