Anjos e meteoros

por Luís Lima / 02 03 2018


Sobre "Meteors", de Gürcan Keltek

De acordo com os salmos, os primeiros habitantes da cidade de deus são os anjos, mensageiros da luz e fiéis a essa verdade divina, vinda do céu. Mas do céu vêm também os meteoros, entidades mais ou menos luciferinas, por certo luminosas nas trevas que abrem na negatividade da luz. Anjos e meteoros. Destes, os anjos terão sido os primeiros agentes mediadores a dificultarem um contacto imediato e instantâneo com a omnipresença divina e os profanos meteoros, ritualísticos nos cânticos e nas tochas e artificiais fogos luminosos sobre a cidade de deus. Fugazes e céleres, surpreendem o homem vindos de aviões de caça, meteoros que devolvem a inocência perdida com que olhamos para uma qualquer aparição luminosa e efémera, como um milagre, fruto dos anjos. Talvez pacífica, mas sempre cheia de ruído, como o dos anjos que sussurravam os segredos divinos, a instantaneidade deste filme é uma espécie de película frágil e opaca, embaciada e turva, turbulenta. Por trás dessa lente-película, vemos anjos focados e meteoros desfocados, a todo o instante. Chuvas de estrelas, ou bandos de pássaros ou fagulhas de disparos, carregadas de meteoros e anjos amalgamados, alumiam e escurecem, num movimento de câmara ao ombro: a guerra. Num mælstrøm, desequilibrado e liso, coincidimos com a lente e descobrimos a dissonante realidade. 

Na primeira longa-metragem de Gürcan Keltek, reencontra-se a observação meteorológica de J. W. Goethe em "O Jogo das Nuvens": «Na planície, as pessoas recebem o bom e o mau tempo na sua configuração final, nas montanhas assistimos à sua formação. Apercebi-me disso muitas vezes, em viagens, passeios, quando, nas caçadas, passava dias e noites nas florestas dos montes, entre penhascos». As primeiras imagens do filme trazem imagens de caça, cabras montesas na mira telescópica e vozes em surdina que acompanham com precisão militar o tiro ao alvo. A materialidade do dispositivo-lente, amparada pelas vozes sussurradas, cria uma suspensão e tensão que iguala a do tiro ao alvo com um arco: a empatia dos nossos olhos reparte-se entre o lugar do atirador e a situação do animal. Anjos animalescos, essas cabras das montanhas estão sujeitas à chuva de meteoros, que são as balas. E há um vento que sopra nas montanhas, um vento que poderia ser o do Zaratustra nietzschiano retomado por Béla Tarr em "O Cavalo de Turim". O som do vento, o claro-escuro do recorte das serranias, luz e sombras: uma cabra abatida.

Poesia e montagem aliam-se às técnicas do observador numa câmara-olho telescopada. Podemos ainda destacar o novo modo de ver, a visão fisiológica em que no olho, como camada de impressão, se constroem as imagens do mundo, ora turvadas pelas lágrimas provocadas pelo fumo, ora focado e claro num aplanar da profundidade de campo, ou seja, realidade telescopada para aproximar a presa do predador, o alvo do atirado, a visão do olhar. 

Brilho, na noite, de tochas: eles vêm com a noite, diz-nos a mulher turca, cujas costas são reveladas antes do rosto – lembrando uma Inês de Medeiros em "Casa de Lava", de Pedro Costa –, enquanto assistimos à chegada da procissão, vinda da montanha, cortejo ritual filmado como uma parada Ku Klux Klan e as marchas de auto de fé medievais. Há sorrisos na marcha noturna. Daqui até ao fogo de artifício na cidade de deus, ouve-se: sentem-se unidos pelo barulho. Mais fogo, ora de artifício, ora de explosões: são quase o mesmo. A resposta dos anjos luminosos artificiais aos meteoros (as bombas) são tiros de salva e fogo artificial. A celebração da guerra, o silêncio do ódio. 

Na cela do estado de sítio imposto em todo o sudeste da Turquia, no final do verão de 2015, a mulher esboça uma improvável lista de compras: «pão, água, açúcar e um pacote de café». Alguns meses depois, dá-se a chegada dos meteoros: 17 de novembro, 23h00. Caem sobre as cidades da região assolada pela guerra e esta parou por momentos. As pessoas saíram a rua e começaram a apanhar as pedras próximo do Monte Nemrut. A lei marcial foi levantada, voltaria e seria de novo levantada, tudo mudara; ruas, os nomes que lhe haviam sido dados e a população à procura dos meteoros que, afinal, valem dinheiro. Saem à rua em busca de meteoros, num desejo de êxodo que nos diz sentir a mulher-anjo. Um desejo de ascender ao céu pleno de vapor: Sou um animal e não um de vós, do tipo migratório.

Luís Lima
Investigador e tradutor


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