Infra-língua

por Alexandra João Martins / 26 02 2018


Sobre "Taste of Cement", de Ziad Kalthoum 

Não se trata de uma metáfora. O sabor do cimento é o que provaram, encurralados nas suas próprias casas, aqueles cujas paredes foram arruinadas pelo fogo da guerra. E quem são eles? Homens sírios, gerações de homens sírios, milhares de homens sírios que, fugidos da guerra na terra natal, vão ajudar a reconstruir outras casas, num outro país, o Líbano (também ele destroçado por constantes conflitos armados), ao mesmo tempo que diariamente vão tentar reconstruir também a sua própria identidade, presos em condições sub-humanas, em dormitórios subterrâneos, alojados nas fundições de edifícios de luxo em construção, dos quais não podem sair depois do lusco-fusco tardio. É nessa dicotomia constante, ténue, e por vezes perversa, entre dia e noite, construção e destruição, passado e futuro, vida e morte, que reside a singularidade deste filme.

Sem pátria, sem voz, sem casa, sem direitos. «Com os olhos embotados de cimento e lágrimas», como diria Chico Buarque e como dá a ver Ziad Kalthoum num desses primeiros planos em que surge recortada a face de um refugiado. Recortes que, tal como a rigidez da composição, a inexistência de diálogo ou de relação narrativa causa-efeito, provocam um certo distanciamento diante do espectador, resguardando qualquer tipo de compadecimento emocional.

Nesse sentido, é um filme de corpos, ora tolhidos, ora em esforço, nos quais se inscrevem todas as experiências e que aqui se expressam através do olhar do realizador. Por outro lado, ainda, o narrador relata univocamente as memórias destes homens, reunindo os refugiados sírios numa só voz, porém constituída por várias vozes. E se os ruídos da maquinaria da construção civil nos remetem para uma paisagem sonora apocalíptica, os movimentos circulares de betoneiras e polidoras indiciam o retorno constante da guerra.

Mas o que move estes homens que, reunindo em si duas das condições mais intricadas do século XX – e, até ver, do século XXI, enquanto operários e refugiados (e esta será necessariamente a condição primeira) – renunciam sacrificialmente às armas? Preferirem a força vital à força letal, apesar de a «morte se ter tornado companhia diária». Esse é o seu modo de resistência. E quem é este jovem realizador que simula um vídeo publicitário para partilhar este submundo? Ziad Kalthoum, ele próprio sírio e emigrado em Berlim. O realizador indigna-se quando questionado se os trabalhadores teriam alguma vez acedido ao filme. Da mesma forma que, para Agamben, o «verdadeiro destinatário da poesia é aquele que não está habilitado para a ler», os verdadeiros destinatários deste filme serão então aqueles que nunca poderão vê-lo e pelos quais e com os quais foi realizado.

Assim, "Taste of Cement" torna-se político não só pela temática que trata, ou por uma hipotética mensagem social, mas sobretudo no lugar onde instaura, num mesmo plano, uma dissensão entre dois mundos: os dos refugiados sírios escravizados que contemplam o cais ou a skyline de Beirute a partir de um edifício que erguem mas de que nunca poderão usufruir.


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