Folha de Sala "Os Verdes Anos"

por Paulo Cunha / 27 05 2015


Os nossos verdes anos

“Era o amor / que chegava e partia: / estarmos os dois / era um calor / que arrefecia / sem antes nem depois… / Era um segredo / sem ninguém para ouvir: / eram enganos / e era um medo, / a morte a rir / nos nossos verdes anos...”

Os Verdes Anos é assumidamente um filme inovador no contexto português, procurando trazer para Portugal o melhor da revolução cinematográfica e cinéfila que então despontava na Europa das novas vagas. Chegado de Paris, onde estudara cinema durante alguns anos, Paulo Rocha trabalhava no argumento do que eventualmente seria o primeiro filme realizado por António da Cunha Telles, madeirense companheiro da aventura parisiense. A leitura de uma vulgar notícia publicada no jornal sobre um crime de faca e alguidar – um jovem sapateiro que assassinou a namorada perto do local onde vivia – despertou a sua atenção e estaria na origem d’Os Verdes Anos. Mas Paulo Rocha não queria contar essa ou outra história dramática sobre as circunstâncias do crime, queria sobretudo partir daí para reflectir sobre as angústias e as frustrações de um país em plena ditadura. 

A forma subjectiva como Paulo Rocha “conta” a sua história, a desvalorização do argumento em favor da mise-en-scène, a falta de diálogos verbais, os enquadramentos e a mobilidade da câmara, o sentido abstrato da guitarra de Carlos Paredes e do poema de Pedro Tamen parcialmente transcrito acima, colocavam Os Verdes Anos na linhagem europeia do cinema moderno que então despontava. Paulo Rocha explora as diversas camadas textuais para compor um filme que não quer expor ou impor uma leitura, mas potenciar as imensas leituras possíveis a cada espectador. A belíssima sequência do baile, em que os protagonistas dançam e dialogam em torno e com o poema de Pedro Tamen, e a sequência final, o crime propriamente dito e a “fuga” de Júlio, são exemplares de como uma narrativa com pontas soltas pretende convocar a liberdade crítica do espectador, tal como fazia o cinema moderno que inundava o cinema europeu.

Mesmo que isso não fosse o que mais interessava a Paulo Rocha, Os Verdes Anos também documenta uma transformação na sociedade portuguesa, que reclamava uma ruptura com o Portugal fechado e conformista dos pátios das cantigas e das aldeias da roupa branca. O país vivia uma transição conflituosa de um paradigma ruralista e nacionalista para um cosmopolitismo urbano, que o complexo drama individual de Júlio tão bem sugere.

Com o passar dos anos, Os Verdes Anos tornar-se-ia uma das obras mais referenciais da história do cinema português, inaugurando uma genealogia estética em que se inscreveriam imensos realizadores de gerações diferentes. São inúmeros os exemplos de outras obras posteriores que citam passagens ou elementos do filme de Paulo Rocha, nomeadamente O Sangue (Pedro Costa, 1989), Três Irmãos (Teresa Villaverde, 1995), Corte de Cabelo (Joaquim Sapinho, 1995), Xavier (Manuel Mozos, 2002) ou Arena (João Salaviza, 2009). Raquel Freire, uma discípula assumida, dirá mesmo que “todos os filmes [da história do cinema português] pós-Paulo Rocha são uma repetição d’Os Verdes Anos”. Neste aspecto, Os Verdes Anos é ainda um filme sem par na história do cinema português. 

Texto de Paulo Cunha sobre o filme "Verdes Anos", incluído no Ciclo Paulo Rocha.



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