Entrevista a André Santos & Marco Leão

por Catarina Maia / 24 11 2017


Nos nove anos que separam Pedro (2016) de A Nossa Necessidade de Consolo (2007), a dupla André Santos e Marco Leão urdiu um mapa de paroxismos, contradições, esplendores. No centro dos seus filmes estão pessoas para quem inventamos passados, pessoas tristes ligadas por afetos quebrados, mas que nem por isso se desmoronam. Mães e filhos, amantes, pessoas e bichos, todos eles habitam o enorme e resistente edifício dos laços. Na edição de 2017, o festival apresenta uma retrospetiva integral da dupla, além de uma aula de cinema e de uma carta branca, a decorrer na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto.

P: O título do vosso primeiro filme, A Nossa Necessidade de Consolo (2007), trouxe-me à memória um ciclo de entrevistas brilhantes conduzidas por Wim Kayzer no início deste milénio a um conjunto de artistas e pensadores sobre O Belo e a Consolação. Existem planos muito belos nos vossos filmes, como aqueles da floresta em Infinito (2011), ou, no espectro oposto, o espectro do humano, o plano da criança que adormece nos braços da mãe. Como é que olham para esta relação entre a beleza e o consolo? Pode a beleza ser uma fonte de consolo? É a beleza, ou, se quiserem, a perfeição das formas algo que buscam no vosso trabalho?

R: Citando Stig Dagerman: “A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer”. A beleza e o consolo podem encontrar-se, ocasionalmente, embora não acreditemos que a primeira, possa ser por si só fonte da segunda. A beleza é demasiado fugaz,  subjectiva, momentânea… mas também o é o consolo. Não diríamos que a beleza ou a “perfeição das formas” seja algo que procuramos conscientemente no nosso trabalho. Vemos a beleza como uma ferramenta, que resulta da forma como olhamos para o mundo, e que usamos para criar aquilo que nos interessa no cinema - encontrar, tocar e reter a experiência da intimidade humana.

P: A experiência do tempo é, evidentemente, muito subjectiva. Contudo, talvez concordem que existe um lado contemplativo nos vossos filmes que brota da longa duração dos planos. Tal como acontece com o processo de revelação fotográfica, o tempo é essencial para nos deixar ver a cena. Estou a pensar, por exemplo, no abraço final em Cavalos Selvagens (2010), ou em Aula de Condução (2015); fechados num campo/contra-campo, é a duração que nos permite ver o desespero, a culpa, a vergonha que se desenha nos rostos e que de outro modo nos escaparia. Esta é uma opção puramente estética/narrativa ou será que também esconde uma espécie de protesto contra o que se poderia talvez chamar de “pornografia do imediato” a que parecemos todos condenados?          

R: Concordamos quando referes que existe um lado contemplativo nos nossos filmes. É algo que nos interessa. Sentimos que quando queres entrar em certos territórios, tais como o da intimidade, a vontade que temos enquanto cineastas é olhar para o que está a acontecer a cada momento.  É uma vontade de estar, de ficar e de observar por tempo indefinido. O modo como o tempo dos nossos filmes se desenvolve surge de forma muito natural e orgânica.  Sentimos que os planos têm que ganhar espessura e levar o espectador a render-se (ou não) à experiência que está a presenciar, seja culpa, vergonha, ou desejo. Temos referido isto inúmeras vezes, filmar é um acto quase místico para nós. As coisas acontecem de forma muito própria, pois por mais que queiras controlar tudo o que te rodeia, o universo não poderia ser mais indiferente a essa vontade.

P: Escolheram as vossas mães como protagonistas do vosso primeiro filme, e desde então, passada quase uma década, voltaram a filmar a relação entre mães e filhos uma e outra vez – Infinito, Má Raça (2013), Pedro (2017) –, o que é que vos intriga nesta ligação, o que vos faz regressar a ela?

R: Quando começámos a filmar, tínhamos pouco mais de vinte anos. Na altura, o cinema era para nós um instrumento de catarse sobre a infância. À medida que fomos crescendo, enquanto indivíduos e enquanto cineastas, algumas questões foram naturalmente resolvendo-se, outras foram esquecidas e outras tantas, expandiram-se ganhando uma dimensão própria. As relações familiares, são a primeira zona de contacto com o mundo e a forma de relação mais primária da nossa existência, ocuparam durante bastante tempo o nosso imaginário cinematográfico. Sendo que a figura materna é um papel crucial em ambas as nossas existências e que surge em Infinito, como lugar utópico e inatingível. No entanto em Pedro, esta relação entre mãe e filho, culmina em momento de conflito e transgressão, resultante da intromissão do mundo e dos papéis/normas sociais nas relações humanas. O que nos faz voltar a este sítio, às nossas mães, acreditamos que seja uma necessidade (que ambos temos) de reconciliação e simultaneamente de confronto com a figura materna.

P: As relações familiares foram até aqui o foco principal da vossa cinematografia. Ouvi-vos dizer mais recentemente, depois da passagem bombástica de Pedro pelo Festival de Sundance, que esta fase estaria fechada. Que se voltam agora para “aquelas coisas que temos vergonha de mostrar aos pais”. Esta é uma formulação curiosa, o que são essas coisas?

R: Com o Pedro fechámos um ciclo. Não quer dizer que não voltemos às dinâmicas familiares mas por agora é um assunto que está resolvido. Estamos em paz com o mesmo. Não nos recordámos do contexto exacto em que isso foi dito, mas referíamo-nos ao nosso projecto de longa-metragem. “Aquelas coisas coisas que temos vergonha de mostrar aos pais” refere-se acima de tudo aos nossos  desejos e medos mais íntimos, pulsões/tensões sexuais, expectativas sobre a intimidade afectiva e sexual. São assuntos que temos vindo a explorar lentamente nas últimas curtas mas que ganham uma preponderância bem mais presente e real no projecto da longa-metragem. E mais uma vez estamos a trabalhar num território biográfico, o que nos deixa vulneráveis de alguma forma.  Mesmo que por biografia se entenda, uma reconstrução da realidade e não apenas uma reconstituição das nossas vivências. A nossa história pessoal transposta para a de outros, ou mesmo a história de outros, evocando a nossa. Um processo constante de construção/destruição e reconstrução/transformação.

P: Sei que têm na calha um argumento para uma longa-metragem. É esta uma oportunidade para desenvolver o embrião da narrativa que vemos despontar nos filmes mais recentes? O que é que nos podem dizer sobre este novo projecto?

R: Neste momento estamos a finalizar mais uma curta metragem e no começo do próximo ano começaremos a filmar um documentário (sendo este último o primeiro projecto que faremos com o apoio do ICA). Recentemente tivemos a oportunidade de ir com o projecto da longa-metragem ao Faliro House | Sundance Mediterranean Screenwriters Lab na Grécia, o que foi extremamente enriquecedor em termos pessoais e profissionais e que nos fez olhar para este filme com outra perspectiva. Não sabemos se será mais narrativo que os filmes anteriores. Neste momento diríamos que não. Mas a grande questão é – o que é que define um filme como sendo narrativo? Este é um filme com o qual queremos questionar quais serão os limites do amor e que mentiras estamos dispostos a viver, em prol da auto preservação?  Ou até mesmo, o que pode a solidão? O mundo e o amor é tudo o que acontece e a nós, só a nós, cabe-nos a destruição. 

Filmes a exibir:
· A Nossa Necessidade de Consolo
· Cavalos Selvagens
· Infinito
· Má Raça
· Aula de Condução
· Pedro

Carta branca:
· Go Get Some Rosemary, dos Safdie

Aula de cinema


 


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