Fórum do Real 2015: Documentar o Imaginário

por Daniel Ribas / 01 12 2015


Documentar o Imaginário

Em 2014, na primeira edição do Fórum do Real, colocámos uma questão, que para nós se tornara central na programação de um festival de documentário: onde está o real? Essa pergunta era obviamente provocatória porque, como programadores de imagens em movimento, sabíamos que o cinema guarda em si todas as ambivalências do real. Ou, para sermos mais precisos, todos os reais conflituantes do nosso mundo. O debate que se proporcionou confirmou esse lugar onde nos colocamos e que sabemos ser demasiado escorregadio e instável para podermos afirmar a existência de um único real. 

O passo seguinte – que aqui propomos este ano – é olhar para o nosso mundo percebendo como o podemos entender através do cinema. À adversidade de um real instável vamos contrapor a necessidade de construção de um imaginário. Todos nós assumimos identidades – a nacional, a sexual, a de classe social ou a clubística, entre muitas outras – mas como Stuart Hall nos mostrou de forma tão candente, essas identidades são, tão só, posições em que nós, sujeitos do mundo, nos colocamos provisoriamente. As identidades são representações do mundo que nos são oferecidas e a que nós aderimos. São imaginários. O historiador Benedict Anderson – uma das autoridades centrais para uma mudança do olhar nacionalista sobre o mundo – esclareceu, ainda nos anos 80, aquilo que ele designou por comunidade imaginada. Esse conceito estruturava-se à volta de uma história do nascimento das nações, uma história muito curiosa porque, ao contrário do que somos levados a crer, ela é produto da revolução francesa do final do século XVIII e não um sentimento constante e ancestral. Para Anderson, a comunidade imaginada nasceu na confluência de diversos acontecimentos, sendo central a emergência dos meios de comunicação de massa, sobretudo, numa primeira fase, do livro e da imprensa. Com esses meios, os membros de uma nação “nunca conhecerão, nunca encontrarão e nunca ouvirão falar da maioria dos outros membros dessa mesma nação, mas, ainda assim, na mente de cada um existe a imagem da sua comunhão”. O “capitalismo de imprensa”, como ele o chamou, permitiu uma representação comum, partilhada. Permitiu a criação de uma identidade nacional. O imaginário é, portanto, uma representação de mundo. O cinema, e em especial o cinema documental, tem uma função necessariamente importante na construção de imaginários (e, muitas vezes, na sua manipulação). O jogo entre os imaginários criados pelo cinema e a hegemonia de certas imagens (a televisão ou o cinema industrial) é complexo, obrigando a uma constante posição crítica sobre as imagens que vemos. Documentar o imaginário deve ser, portanto, uma forma de questionar as representações do mundo, propondo pontos de convergência onde o cinema se abre à ambivalência do real. Nesse sentido, a força do imaginário, no cinema, está em que não precisa, necessariamente, de ser um espelho fotográfico dos objetos, mas uma construção em que as possibilidades de narrativa e de encenação são tão fortes como os momentos captados numa ingénua “autenticidade”. O cinema documental tem, nesse sentido, a capacidade de inventar novos mundos, de produzir utopias que combatam o estado atual do mundo, das suas crises e das suas indignidades. O cinema é uma arma para construir outros mundos possíveis: para combater e propor novos imaginários.

Daniel Ribas

 


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