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Transmission: um plano geral para a edição de 2020

por Porto/Post/Doc / 25 10 2020


Não é nova a história da relação entre o hip hop e as novas gerações. Género conectado com o movimento das ruas, cabe-lhe não raras vezes a função de medir o pulso às preocupações, rotinas e pensamentos da juventude. Com o advento do digital e a universalização que o mesmo trouxe à produção e divulgação da cultura, a música que nasce na rua passou a crescer no ciberespaço. Um pouco por todo o mundo novos artistas emergiram, construindo em seu torno um apertado círculo de fãs, a quem as redes sociais haveria de dar um canal para a construção de uma comunidade. Em American Rapstar pomos os olhos firmes no movimento do Soundcloud Rap, cena lo-fi habitada por artistas problemáticos, misfits de uma sociedade pós-trumpiana onde o consumo de drogas de farmácia (leia-se medicamentos) se apresenta como uma forma de estar. Disruptivos, provocadores e milionários, nomes como Lil Peep, Bhad Bhabie, Lil Xan ou Smokepurpp tornaram-se em verdadeiros ícones de uma geração de ideias ambíguas, mas com opiniões muito claras sobre o estado da cultura, da juventude e do futuro da música. É isso que ouvimos neste documentário de Justin Staple através dos depoimentos das suas mais proeminentes figuras e da sua contextualização no quadro global.

Dark City: Beneath the Beat é uma carta de amor à cidade. Às suas gentes. À sua música. Diz a crítica que o filme, que cruza a linguagem documental com o music video, está montado como de uma djmix se tratasse. Não é de admirar, já que nasce das mãos de uma das suas mais coloridas e multifacetadas ativistas culturais: TT The Artist. Co-produzido por Issa Rae (que conhecemos do sucesso de streaming Insecure), a longa metragem propõe uma experiência audiovisual que perfila a forma como a cena musical de Baltimore se constrói a partir da sua comunidade local. Fá-lo com testemunhos, na primeira pessoa, de figuras icónicas da cena clubbing de Bmore e um conjunto de cenas coreografadas que nos atiram para uma cidade em movimento, ao ritmo do próprio beat. Dark City: Beneath the Beat não é só o filme mais dançável desta competição, é também um testemunho de esperança e pacificação de uma comunidade onde as tensões raciais são uma abjecta rotina tornada normalidade. “Em vez de reafirmar as palavras tristes de um trabalhador do centro de recuperação de jovens que diz que "Em Baltimore, tudo é tratado com hostilidade", TT canaliza essa energia numa sequência de protesto onde dançarinos negros em macacões laranja da prisão se movem, unos, ao longo do Inner Harbor, reivindicando o espaço através da solidariedade. Ao invés de destacar o assassinato de Freddie Gray levando-nos pelos detalhes como se não devêssemos conhecê-los, TT termina seu filme com uma nota de parar o coração ao capturar uma bailarina dançando entre as lápides de um cemitério de Baltimore”, lê-se no Indiewire. 

É um dos filmes musicais obrigatórios de 2020. White Riot, dirigido por Rubika Shah, mistura entrevistas actuais com imagens de arquivo para recriar o ambiente de histeria anti-imigração que marcava a Inglaterra dos anos 70. No seu centro o Movimento Rock Against Racism, nascido como resposta às marchas da Frente Nacional e a um certo movimento de músicos que clamavam pela ideia de um “Reino Unido branco”.  De um lado os movimentos de recruta neonazi, do outro um movimento rastilho que juntava músicos de várias áreas (do punk ao reggae) na organização de eventos e concertos de encontro cultural. Entre as fanzines e o Carnival Against Nazis, acompanhamos em White Riot os momentos-chaves de um movimento de resistência que prova o lugar da música na lutas sociais. 

Corriam os 90 quando os The KLF incendiaram a discussão artística queimando, em acto performático, um milhão de libras provenientes dos seus lucros enquanto uma das bandas mais promissoras da cena pop da altura. A acção, que despoletaria uma intensa discussão pública em torno dos conceitos e limites da arte, ficou até hoje como um dos marcos de uma carreira construída em cima de uma capacidade invejável de transformar a música num happening. Mais de 20 anos depois, já afastados dos palcos e depois de terem retirado toda a sua música de venda, Bill Drummond e Jimmu Cauty regressaram. Agora já não como uma lendas pop, mas como coveiros de  um imenso monumento: A Pirâmide do Povo, que pretende erguer-se a partir de 34,952 tijolos de cinzas humanas. Desenho documental sobre a mente bizarro-criativa da dupla,  Welcome to the Dark Ages acompanha os The KLF no desenvolvimento desta ideia, ao lado dos colaboradores do costume e revelando, em sub-texto, o percurso de uma das referências eternas do movimento acid house. O filme será exibido no dia 23 de novembro, aquele que eles apelidaram como o The Toxteth Day of the Dead. 

A Vida Dura Muito Pouco, começa assim a proposta de documentário em torno de um dos fenómenos da música portuguesa deste ano. José Pinhal, artista já falecido e até há pouco completamente desconhecido do público português, é a figura central desta história desenhada por entre os clubes de um Porto de outros tempos e os testemunhos de admiradores e contactos próximos.Na tentativa de celebrar a obra de Pinhal, Dinis Leal Machado constrói aqui um filme-investigação que traz novas luzes sobre a vida e música do cantor de Matosinhos, desde a descoberta das suas cassetes até à construção do mito. 


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