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Paisagens do Tempo

por Alexandra João Martins / 03 07 2018


Retrospectiva António Reis e Margarida Cordeiro no Porto/Post/Doc 2018

António Reis e Margarida Cordeiro ocupam um lugar absolutamente singular na história do cinema português. Constituídos como dupla por altura do 25 de Abril, em 1976 os cineastas retiraram-se do frenesim urbano da revolução para um lugarico remoto no interior de Portugal, em Trás-os-Montes. A poesia (e o cinema) não estava na rua, como preconizava Sophia de Mello Breyner; estava no campo. Ao invés de mergulhar na espuma dos dias, Reis e Cordeiro tratam de registar e de reavivar os saberes ancestrais de uma comunidade esquecida. Respigar memórias, mitos e lendas, como os camponeses respigavam o trigo, e atravessar os tempos num tempo único: o do cinema.

E qual a importância deste gesto? Para lá de uma perspectiva contextual, que seria justamente dar a ver a pobreza vivida à época – durante todo o Estado Novo e em 1982 (ano em que é realizado "Ana") ainda – naquela região, Reis e Cordeiro lançam um elogio à estética da terra, das raízes, da origem, e, dizem alguns, lançam também as sementes daquilo que viria a ser o “cinema português”, enquanto modo de produção artesanal, de atenção à comunidade e ao labor diário do cinema.

Em Reis e Cordeiro encontram-se os mesmos paysans, do século XVIII, de Straub-Huillet em "Trop tôt/ Trop tard". Paysan de "Paisà", paysan de país, paysan de paisagem. Elogio da auto-suficiência, na vida como no cinema (e, diga-se, como na poesia), que encontrarão nas ferramentas do cinema directo, numa economia dos meios, despojada das astúcias dos modelos de produção dominantes, e na valorização do trabalho do artesão.

Se, com "Trás-os-Montes" (1976), António Reis e Margarida Cordeiro alcançam o reconhecimento internacional no circuito de festivais, e nomeadamente junto dos seus pares, como Jean Rouch ou Joris Ivens, em 1974, com o incontornável "Jaime" roubaram elogios inefáveis a João César Monteiro: “um dos mais belos filmes da história do cinema, ou, se preferem: uma etapa decisiva e original do cinema moderno”. Antes disso, António Reis já trabalhara em várias curtas-metragens: "Alto do Rabagão" (1966), "Do Rio ao Céu (1964), "Painéis no Porto" (1963) e "Auto de Floripes" (1959).

Entre o arcaico e o porvir, entre o documentário e a ficção, entre o Atharvaveda e Rilke, “entre os lobos e os Peugeot”, como disse o próprio realizador: o que interessa a Reis e Cordeiro são os interstícios, espaços abertos que potenciam a criação de novas formas. Assim, a ficcionalização dos encontros que foram vivendo e filmando corresponde à construção de imagens vivas que não cessam de reconfigurar a realidade.

Por um lado, em "Ana", a dupla acompanha a ritualização do quotidiano – na vida e na morte – no seio doméstico, por vezes em perfeitos quadros vivos; por outro, em "Rosa de Areia" envereda por um universo imaginário próprio, quasi-delirante, que cruza múltiplas referências da História das civilizações numa reflexão sobre a condição humana, que não raras vezes faz lembrar o Pasolini mítico.

Enquanto professor na Escola Superior de Teatro e Cinema, António Reis formou uma geração de profissionais – hoje reconhecidos internacionalmente – e uma legião de admiradores confessos: Pedro Costa, João Pedro Rodrigues, Manuel Mozos, Vítor Gonçalves, Joaquim Sapinho, Pedro Caldas, entre outros. A herança resiste ainda nos mais novos, de Marta Mateus a Mariana Caló e Francisco Queimadela.

Em 2018, numa edição dedicada ao tema "Ficções do Real", o Porto/Post/Doc homenageia os realizadores com uma retrospectiva, que inclui uma versão restaurada e digitalizada de uma obra maior do cinema português: "Trás-os-Montes".

Filmes a exibir
"Jaime" (1974)
"Trás-os-Montes (1976)
"Ana" (1982)
"Rosa de Areia" (1989) 

Esta retrospectiva é feita em parceria com a Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema.


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