Ne Change Rien

Ne Change Rien · Change Nothing

Pedro Costa

2009, FRA, PRT, 100, M12


Há Filmes na Baixa!

25 Mar 2015 · Passos Manuel · 22H00


Ne change rien começou como parte da amizade entre a atriz Jeanne Balibar, o engenheiro de som Philipe Morel e Pedro Costa. Com a obsessão que lhe é peculiar, Pedro Costa filmou durante cinco anos Jeanne Balibar, aqui como cantora, dos ensaios às sessões de gravação, dos concertos de rock às aulas de canto clássico, de um sótão em Sainte-Marie-aux-Mines ao palco de um café em Tóquio, do Johnny Guitar à La Offenbach Périchole. Folha de Sala: Em Ne Change Rien, a música faz a noite em vez de simplesmente se alastrar por ela. Em cada momento, Jeanne Balibar e os músicos que com ela trabalham surgem num resguardo noturno, onde os segredos se aprofundam. Ela canta, eles tocam, e a noite cai como uma cortina que abre. A luz mantém-se incerta ou distante. O mais intenso é a chama humana que habita um abrigo fecundo. Pedro Costa afasta-se neste filme da comunidade do Bairro das Fontaínhas com a qual desenvolveu três obras, Ossos (1997), No Quarto da Vanda (2000), e Juventude em Marcha (2006), e à qual regressaria em Cavalo Dinheiro (2014). Mas não se afastou do cinema como acontecimento que emerge de relações comunitárias, duradouras ou efémeras. Tal como nesses filmes, o olhar dele é interior, o que faz com que todos estes projetos tenham uma clara dimensão comunitária. No princípio, a cantora e a banda atuam sem que se vejam os espectadores. A atenção centra-se no palco. A imagem é quase negra, sustida e sem mudança, e o pouco que se vê intensifica o muito que se sente. A afinidade simples entre os músicos sobressai no concerto de sons. São filmados de uma baixa altura, num ligeiro contrapicado, que desvenda um firmamento de luzes por cima deles. A harmonia entre eles tem um tom cósmico, incomensurável. O filme passa depois deste plano geral para os grandes planos, separando cada membro da banda e mostrando como essa relação se constrói e ganha espessura nos ensaios e gravações. O foco é em Balibar, voz que paira sobre as notas tocadas como uma assombração humana. Ela procura uma expressão vocal subtil e penetrante, não só na música que faz com o grupo, mas também numa ópera de Jacques Offenbach. Este é um cinema da intimidade, isto é, da familiaridade e do entendimento entre as pessoas filmadas, mas igualmente entre quem é filmado e quem filma. O que é privado não é escancarado — basta recordar a cena em que, depois de tocarem, os músicos se reúnem em convívio e a visão dessa reunião é obstruída por uma tela branca. Entre a exposição e a ocultação, a revelação e a transfiguração, há uma atenção criativa que se alimenta do pulso dos seres procurando ignorar o evidente e encontrar o ardente. Não podemos falar de distância justa, e muito menos de distância certa, mas de uma distância que molda as imagens e os sons como matérias plásticas com a liberdade de um laço que une sem prender. Os enquadramentos condensam a energia dos acontecimentos sem a aprisionar. A noite permanece, mundo dos olhos furtivos dos gatos e dos tempos vagarosos da amizade, mas a cena final é a mais luzidia. Num camarim, Balibar ocupa o centro, encostada a uma parede branca, em segundo plano. Rodolphe Burger, à direita, toca uma guitarra, quase de perfil. Hervé Loos, à esquerda, improvisa a percussão com uma garrafa de plástico. Atrás de Hervé, um espelho devolve outra imagem de Balibar. O cruzamento de forças visuais manifesta a capacidade de improviso, de arriscar, sem desconforto nem receio. Sérgio Dias Branco (Professor universitário e investigador)