As Canções

As Canções · The Songs

Eduardo Coutinho

2011, BRA, 90', M12


Há Filmes na Baixa!

11 Mar 2015 · Passos Manuel · 22H00


Munido apenas de uma câmara de filmar e algumas questões, Eduardo Coutinho dá-nos uma lição sobre cinema e sobre paixão. Sentado numa cadeira num palco vazio, ele pergunta a vários conterrâneos qual a música que mais os marcou em toda a vida. Um a um, vão dizendo qual a canção e começam a cantá-la, “a capella” como se estivessem numa audição. A canção escolhida é então acompanhada por uma história pungente ou uma confissão inesperada. São maravilhosas pessoas e maravilhosa canções que falam sobre como o amor, a luxúria e o desejo determinam muitas vezes os caminhos das nossas vidas. Folha de Sala «Ápice de si - sobre “As Canções”, de Eduardo Coutinho.» Eduardo Coutinho por algum tempo – como me contou em uma entrevista – imaginou um filme sobre a relação das pessoas com as músicas de Roberto Carlos - figura central da música popular brasileira que atravessa gerações desde os anos 60. Por motivos diversos, esse projeto de filme se transmutou ao longo dos anos até chegar a esta pérola de fabulação cinematográfica chamada “As Canções”. Sim, fabulação. O cinema de Coutinho era, é, um cinema de fábula. Aqui, depois de anos investigando ao máximo o lugar limítrofe entre o sentido de depoimento e o sentido da contação de histórias, Coutinho levou seu cinema a confrontar um lugar ainda mais mágico da fala: as letras de músicas. Não, as letras de música enquanto gesto vocal da imaginação, do eco da imaginação de seus “entrevistados”. O sentido de encenação da vida cotidiana em Coutinho nunca teve a conotação da trivialidade, da banalidades reality shows, das small-talks dos talk shows. Não. No cinema de Coutinho, essa auto-encenação cotidiana da palavra era tudo menos comum, tudo menos acomodada no real. O cinema de Coutinho procurava – com seu método de entrevistas diretas, secas, justapostas em montagem aparentemente simples – o que havia de extraordinário, de mágico. De quase utópico no gesto da palavra. O real era algo que só se expressava na fabulação, que não tinha uma concretude senão no gesto. Em um país onde a democracia sempre foi frágil, e ainda o é, esse gesto de Coutinho era, em última instância, de uma potência política gigantesca na virada dos anos 90-2000, no Brasil, embora algumas vezes confusa para os pensadores e os críticos ancorados ainda no cinema político dos anos 60-70. O cinema de Coutinho era um cinema de empoderamento, de empoderar aqueles corpos, rostos, vozes, a ponto de que todo o cinema pudesse caber em suas expressões e que, naquele território ali, o mundo se tornasse menos unilateral, menos obediente, menos submetido. O cinema de Coutinho revisitava o potencial imaginário do cinema brasileiro não mais no lugar da alegoria analítica imposta como síntese de mundo, mas no sentido de uma utopia imanente e fragmentada de suas entrevistas, de seus “encontros” (como gostava de dizer). E o que pode haver de mais mágico e fabular nas possibilidades da fala senão o canto? Senão o cantar, esse lugar onde as palavras são projetadas como informação poética e como vibração física no espaço? Espaço imaginário em rede do cancioneiro popular brasileiro retirado de seu lugar de idolatria e puxado para perto, para o nosso lado, para o nosso lugar. “As Canções” é isso: um convite a um mergulho nesse lugar denso e leve onde as palavras reinam e inventam mundos, lugares e projetam pessoas como deuses. As músicas populares, vindas das gargantas dessas pessoas, ditas comuns, são instrumentos de persistência do espírito poucas vezes vistas no cinema. Não são conversas comuns, são conversas íntimas, o que é muito diferente. E essa intimidade compartilhada e inventada chega ao ápice de sua maravilha no momento do canto. Ápice de si no momento do gesto do cantar. Coutinho, com seu cinema, investigava as diversas formas do corpo, dos diferentes corpos, se colocarem como agentes criadores e compartilhadores de mundos. Seus diversos filmes trabalhavam com este horizonte. Um horizonte que foi se afinando, afinando até chegar até essa nota aguda no coração que é “As Canções” – que se tornaria, tragicamente, seu último filme para salas de cinema. É um cinema simples. É um cinema direto. É um cinema previsível como as notas e os refrões das músicas mais populares das ruas. Mas, assim como essas músicas, tocam a obviedade com tamanha abertura e fragilidade, que nos fazem acreditar por alguns segundos, no romantismo mais barato, nos amores mais impossíveis, nos sentimentos mais afinados. Os filmes de Coutinho são isso: máquinas de nos fazer acreditar, num lampejo de um olhar, em um nó da garganta, na existência mesma, e maravilhosamente frágil, do próprio CINEMA. Rio, Março de 2015, Felipe Bragança (Realizador brasileiro)