Fórum 2014

Um dos teóricos do cinema mais carismáticos, André Bazin, no seu elogio do neo-realismo italiano, falou-nos daquilo que o cinema seria capaz: uma espécie de busca por um mistério do real. É certo que a sua ênfase estava também nos dispositivos técnicos, ao propor a preponderância do plano-sequência e do minimizar da importância da montagem. Em todo o caso, o realismo de Bazin colocava no centro da teoria fílmica uma necessidade de hibridizar a ficção com o documentário, e vice-versa. O realizador não seria tanto um técnico especializado, mas um actor no seu próprio mundo. Sabemos, no senso comum cinematográfico, que qualquer filme de ficção é o documento de uma filmagem (os filmes do período clássico de Hollywood revelam uma certa mundividência da América, assim como, por exemplo, em dois casos opostos, os filmes de Wong kar wai nos mostram Hong Kong ou os de Mike Leigh nos mostram Londres, ambos nos anos 90). Por outro lado, o filme documentário sempre se muniu das ferramentas da ficção e, para o comprovar, basta citar o exemplo fundacional do género: “Nanook of the North” (1922), de Robert Flaherty, em que muitas das cenas são encenadas pelo realizador. O cinema contemporâneo tem assumido uma hibridização crescente entre documentário e ficção, como comprovam autores tão diferentes como Pedro Costa, Kleber Mendonça Filho, Nicolás Pereda ou Joshua Oppenheimer. O fórum que aqui se apresenta pretende discutir, neste contexto, como o cinema trabalha o real. Assumimos aqui o “mistério do real” de Bazin, entendendo, portanto, que não se trata de um objectivo pré-definido (encontrar o real), mas cercá-lo, ver como é possível nos aproximarmos ao mundo. Só o podemos conseguir se nos interpelarmos com a pergunta – Onde está o Real? – mesmo sabendo que nunca saberemos totalmente a resposta.